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Pluribus, nova série que traz a genialidade de Vince Gilligan

Pluribus (estilizada como PLUR1BUS) é a nova produção de ficção científica e drama psicológico idealizada por Vince Gilligan (criador de Breaking Bad e Better Call Saul). Lançada em novembro de 2025, a obra rapidamente se tornou um dos maiores sucessos de crítica do ano. Mesmo com pouco tempo de exibição, o título já se consolidou como um triunfo técnico e narrativo, rendendo premiações de prestígio a Rhea Seehorn. Segundo Gilligan, o projeto não existiria sem a atriz, visto que o roteiro foi concebido especificamente para ela. O modo ideal de apreciar esta trama é sem qualquer informação prévia. Contudo, torna-se impossível redigir uma análise sem comentar elementos básicos. Fica aqui minha recomendação: assista aos episódios antes de prosseguir com esta leitura.

Sinopse

Pluribus acompanha a jornada de Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma mulher isolada que se torna a última resistência emocional em um mundo transformado por um fenômeno extraterrestre. Após a humanidade ser infectada por um “vírus da felicidade que dissolve o livre-arbítrio e funde todas as consciências em uma mente coletiva pacífica e uniforme, Carol descobre ser inexplicavelmente imune ao processo. Enquanto a sociedade tenta integrá-la forçadamente a essa utopia desprovida de individualidade, a narrativa explora a luta da protagonista para preservar suas imperfeições, dores e a própria essência humana diante de uma existência coletiva vazia.

A reunião de Vince Gilligan e Rhea Seehorn

A obra marca um ponto de virada na carreira de Vince Gilligan, que abandona o submundo criminal de Albuquerque para explorar a ficção científica especulativa com a mesma precisão cirúrgica de seus trabalhos anteriores. A escolha de Rhea Seehorn para protagonizar a produção não é apenas um reencontro nostálgico, mas uma decisão artística estratégica. Sua atuação como Carol Sturka é fundamentada em nuances, transmitindo um isolamento profundo apenas através do olhar. “A pessoa mais infeliz da Terra precisa salvar o mundo da felicidade”, este slogan é perfeito para captar o mote central da história.

A distopia da felicidade

A grande inovação da trama reside na subversão do gênero apocalíptico. Em vez de hordas de monstros ou colapsos violentos, o “fim do mundo” é apresentado como um estado de suprema cortesia e harmonia compulsória. O vírus alienígena elimina o livre-arbítrio, unindo a humanidade em uma consciência coletiva conhecida como “A União”. Para Carol, ser imune a esse fenômeno não é um superpoder, mas uma maldição existencial. Ela se torna uma pária em um mundo onde a individualidade é vista como uma patologia a ser curada, transformando sua liberdade no paradoxo de ser a pessoa mais solitária em um planeta habitado por bilhões de seres sorridentes.

Temas filosóficos

No cerne da narrativa, propõe-se uma provocação filosófica: seria o sofrimento um componente essencial da dignidade humana? Como sugerido em Divertida Mente (2015), a resposta parece ser positiva. Através da resistência de Carol, o roteiro defende o direito à melancolia e às emoções negativas como pilares da identidade. A sátira social emerge na forma como a “União” opera, utilizando a polidez extrema para realizar atos de horror psicológico, como a invasão total da privacidade em nome do bem-estar comum. Ao criticar o coletivismo radical, Gilligan expõe o vazio de uma harmonia que exige a anulação do “Eu” para o nascimento de um “Nós” artificial.

Produção e marketing inovador

A qualidade técnica da Apple TV+ brilha através do compromisso de Gilligan com efeitos práticos. Esse primor é evidente no episódio 5 (Got Milk), que apresenta um plano-sequência primoroso misturando drones e efeitos práticos para mostrar o êxodo sincronizado de veículos em Albuquerque. Esse realismo estendeu-se para fora das telas com uma campanha de marketing viral sem precedentes, utilizando números de telefone reais e interferências em sites de busca para gerar um sentimento de paranoia no público. Essa imersão transformou o ato de assistir em uma experiência transmídia, na qual o espectador se sente tão vigiado quanto a protagonista. Em certos momentos, a sensação é de que a coletividade opera como uma IA que concede tudo o que desejamos.

Conclusão

Pluribus é uma obra fascinante que tem a coragem de ser desconfortável em um mundo que busca o conforto absoluto. Espectadores mais impacientes dirão que “nada acontece”, mas é na contemplação que o subtexto se revela e, de forma gradual, nos conquista. Ao transformar a felicidade universal em um cenário de horror, Vince Gilligan prova que o verdadeiro pesadelo não é o caos, mas a perda da capacidade de sentir dor, luto e, consequentemente, amor. É uma experiência indispensável, visualmente impecável e emocionalmente devastadora, que reafirma a importância do indivíduo em uma era de conformismo digital.

A 1º temporada de Pluribus se encontra completa na Apple TV+.

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