Contos Paralelos: Crítica do Novo Filme de Asghar Farhadi
Contos Paralelos é o mais recente trabalho do cineasta iraniano Asghar Farhadi, vencedor do Oscar por A Separação (2011) e O Apartamento (2016). Apresentado na Competição Oficial do Festival de Cannes de 2026 e integrado à seleção Expectativa do Festival do Rio 2026, o longa-metragem reúne renomados atores do cinema francês em sua produção. A passagem da obra pelo evento carioca é acompanhada pela presença do próprio diretor no Rio de Janeiro, com participação na Sessão de Gala no Cine Odeon, condução de uma aula aberta no Armazém Utopia e exibições programadas em salas como o Kinoplex São Luiz, o Estação Claro Gávea e o Reserva Cultural Niterói.
Sinopse
Em busca de inspiração para o seu novo romance, Sylvie (Isabelle Huppert) espiona os vizinhos do prédio da frente. Quando contrata o jovem Adam (Adam Bessa) para ajudá-la no dia a dia, ela ignora que ele irá revolucionar a sua vida e o seu trabalho, até o ponto em que a ficção por ela imaginada ultrapassa a realidade de todos eles. Conforme a linha entre observação e interferência se apaga, a intimidade alheia se torna um jogo arriscado de segredos e projeções. O que começa como um mero exercício criativo logo desencadeia uma teia de tensões morais e consequências imprevisíveis para a vida dos envolvidos.
Deslocamento Moral
Ao transferir o cenário de suas produções de Teerã para o ambiente intelectual de Paris, o diretor Asghar Farhadi promove uma mudança significativa no tom de sua investigação moral. Enquanto seus trabalhos no Irã abordavam dilemas éticos condicionados por pressões burocráticas, religiosas e sociais, esta narrativa desloca o debate para o campo da responsabilidade artística. A conduta dos personagens deixa de responder a imperativos de sobrevivência e passa a ser guiada pelas escolhas do processo de escrita. Nesse contexto, a observação e a fabulação surgem como atitudes intrusivas, em que o ato de transformar a vida de terceiros em material literário revela uma apropriação questionável das fronteiras da privacidade.
Efeito em Cadeia
A narrativa ganha tração ao demonstrar como pequenas suposições podem se transformar em um efeito em cadeia capaz de desestabilizar a rotina de pessoas comuns. O conflito se intensifica com a introdução do jovem assistente, Adam, um personagem que não age por malícia ou perversidade, mas cuja desatenção aos limites da privacidade acaba por fragilizar um grupo de três vizinhos anteriormente unidos e harmoniosos. Esse desdobramento evidencia o poder destrutivo da especulação: a simples invenção de cenários e a interferência na vida alheia se revelam suficientes para deteriorar o convívio diário e desgastar laços afetivos preexistentes.
Desempenho do Elenco
No plano das interpretações, o trabalho do elenco sustenta a credibilidade da narrativa diante das reviravoltas da trama. Virginie Efira (Benedetta) se destaca pela precisão ao transitar entre a mulher observada na realidade e a versão criada para o livro, construindo versões distintas sem perder a coerência da figura retratada. Paralelamente, Adam Bessa (Resgate) confere ao assistente um tom de vulnerabilidade e ambiguidade essencial para o desenvolvimento dos conflitos. A habilidade dos atores em equilibrar as duas camadas de atuação assegura o interesse na dinâmica dos papéis espelhados ao longo do filme.
Construção Narrativa
Apesar do bom apelo de sua premissa, o resultado final é prejudicado por um roteiro excessivamente calculado. A construção da trama se apoia em uma estrutura rigorosa de simetrias e jogos de espelhos que, pela precisão com que é executada, acaba por limitar a espontaneidade e a proximidade com o público. A obra funciona como um exercício narrativo interessante de ser acompanhado do ponto de vista intelectual, mas a preocupação constante com o rigor de sua engenharia impede o desenvolvimento de uma conexão emocional verdadeira com as situações apresentadas.
Conclusão
Contos Paralelos é uma obra de saldo mediano, cujo maior interesse reside no acompanhamento de seu engenhoso dispositivo narrativo. Embora instigue pela forma como articula os limites entre observação e criação, o longa-metragem atinge um resultado contido, limitado pela frieza de sua concepção. A experiência final sobressai mais pela curiosidade em relação ao mecanismo da trama do que por um impacto duradouro, fixando-se como um estudo de linguagem correto, porém distante.
Serviço / Onde Assistir
Contos Paralelos está sendo exibido no Festival do Rio e tem previsão de estreia no circuito comercial em 15 de outubro.

