SQUEL, CONFISSÕES DE UMA PORTA-BANDEIRA
Squel, Confissões de uma Porta-Bandeira é um documentário brasileiro dirigido por Celina Torrealba e Zeca Brito, exibido na mostra Première Brasil: Retratos do Festival do Rio 2026. O filme registra a trajetória artística de Squel Jorgea, neta de Xangô da Mangueira e figura marcante do Carnaval carioca com mais de duas décadas de atuação na passarela. Ao longo de sua carreira, ela alcançou o marco de conduzir o pavilhão principal de grandes agremiações do samba, como Estação Primeira de Mangueira, Portela e Grande Rio.
Sinopse
Após se aposentar em 2022, Squel Jorgea decide voltar ao Carnaval do Rio. Porta-bandeira por mais de 20 anos, ela foi a primeira a representar tanto a Mangueira quanto a Portela. O documentário acompanha seus bastidores e sua preparação física e emocional para o retorno à Marquês de Sapucaí após a maternidade. Entre o silêncio e o tambor, sua dança se transforma em rito, resistência e celebração da cultura afro-brasileira.
Maternidade e Desempenho Físico
Ao afastar a visão idealizada da porta-bandeira, a narrativa concentra sua atenção na exigência corporal e no esforço contínuo de treino. O documentário expõe as transformações físicas e emocionais decorrentes da maternidade sem recorrer a sentimentalismos, detalhando a rotina rigorosa dos ensaios, a disciplina necessária e o desgaste inerente ao processo. Esse retrato estabelece um contraste direto entre os cuidados diários do ambiente familiar e a prontidão técnica de uma profissional da dança. Dessa forma, a volta à passarela deixa de ser compreendida apenas como um momento de exibição e passa a representar a retomada do domínio da protagonista sobre seu próprio corpo e seu percurso profissional.
Ancestralidade e Tradição
A dimensão individual do registro se expande ao associar o bailado à preservação da memória e do patrimônio afro-brasileiro. O vínculo familiar com Xangô da Mangueira situa a trajetória da protagonista em uma tradição histórica contínua de salvaguarda do samba. Nessa perspectiva, a condução do pavilhão ultrapassa os critérios de avaliação técnica e assume a função de um gesto coletivo de continuidade cultural. A obra evidencia, assim, o papel central das mulheres na manutenção dessa herança, posicionando a porta-bandeira como figura fundamental na liderança simbólica e na transmissão desses saberes entre gerações.
Recursos Formais e Linguagem Visual
A condução da direção opta por recursos de som e imagem para marcar a divisão entre o ambiente público e a esfera privada. O trabalho sonoro constrói essa alternância ao expor o estrondo das baterias nos ensaios e desfiles em oposição direta ao silêncio das cenas intimistas. Na fotografia, a iluminação e as cores reforçam esse distanciamento, usando tons mais sóbrios para o cotidiano e uma paleta vibrante para os momentos na avenida. Essa variação constante entre ruído e quietude, somada ao contraste visual, estabelece um ritmo que aproxima o público da dualidade vivenciada pela artista.
Recorte Temporal e Alcance
A opção por delimitar o acompanhamento ao período entre 2020 e 2024, cobrindo o anúncio da aposentadoria, a maternidade e o posterior retorno, confere proximidade e densidade ao relato, sem a necessidade de uma cronologia biográfica tradicional. Essa concentração temporal permite observar os dilemas da artista, embora exija uma postura mais contemplativa ao presenciar o tempo da vida cotidiana. Por outro lado, a narrativa parte do pressuposto de que o espectador já domina o funcionamento do Carnaval carioca e a relevância do posto de porta-bandeira, oferecendo pouca contextualização técnica. Esse fator pode limitar a compreensão de quem não está familiarizado com a cultura das escolas de samba, conferindo à obra um caráter mais nichado.
Conclusão
Squel, Confissões de uma Porta-Bandeira se apresenta como um registro relevante para a cinematografia nacional ao preservar a memória de uma grande figura do Carnaval carioca. A obra ainda contribui para a salvaguarda da cultura popular e da tradição do samba ao registrar uma trajetória negra a partir de suas transformações, escolhas e momentos de transição. Ao ultrapassar o recorte temático das festividades, o trabalho estabelece um estudo consistente sobre a dedicação artística, a construção da identidade e o compromisso com um patrimônio cultural.
Serviço e Exibição

