Socorro! é o novo longa-metragem dirigido por Sam Raimi, um suspense de sobrevivência que prioriza a tensão psicológica em harmonia com um humor satírico em cenários de isolamento extremo. A semelhança com o ato final de Triângulo da Tristeza (2022) torna-se latente ao desmantelar hierarquias sociais e inverter dinâmicas de poder previamente estabelecidas. Somado a isso, a obra explora o limite humano, equilibrando o perigo iminente da natureza com um estudo de personagem agudo e claustrofóbico. A narrativa valoriza a transformação física e mental dos protagonistas diante do desespero. Com isso, a obra se destaca como um thriller moderno que extrai o máximo impacto de sua premissa minimalista.
Sinopse
Acompanhamos a assistente executiva Linda Liddle (Rachel McAdams) e seu chefe arrogante, Bradley Preston (Dylan O’Brien) que, após um trágico acidente aéreo, tornam-se os únicos sobreviventes em uma ilha deserta e hostil. O que começa como uma luta desesperada contra os elementos rapidamente se transforma em um embate psicológico brutal, onde as hierarquias de escritório perdem o sentido. Enquanto buscam resgate, os dois precisam decidir se a maior ameaça à vida é o ambiente selvagem ou a presença um do outro.
A Desconstrução do Sonho Corporativo
No início, a disparidade de poder entre o executivo e sua subordinada é evidente, levando o público a detestar esse ambiente corporativo cruel. Essa dinâmica muda drasticamente quando os protagonistas naufragam em uma região remota. Nesse cenário, status, dinheiro e títulos tornam-se irrelevantes. As habilidades da assistente, antes alvos de deboche, agora são o único capital real. O cargo de CEO revela-se inútil diante da necessidade bruta de encontrar água e fogo. A autoridade, uma vez removida, deixa o executivo em uma posição vulnerável e patética, elevando o conhecimento prático de Linda ao status de único recurso de subsistência.
A direção de Sam Raimi
É gratificante ver Sam Raimi retornar ao gênero, mesmo que este não seja um horror convencional. Seu estilo característico, que mescla sustos, violência e humor físico, é um dos pontos altos do longa. O riso mistura-se ao desespero do espectador, gerando momentos memoráveis. O sofrimento dos protagonistas é retratado com uma ironia sádica, transformando sua jornada em um desconforto crescente que torna a experiência cinematográfica indispensável.
Performance do elenco
O filme repousa sobre o contraste entre Rachel McAdams (Doutor Estranho no Multiverso da Loucura) e Dylan O’Brien (Maze Runner: Correr ou Morrer). McAdams entrega uma performance física e contida, permitindo que sintamos a transição gradual da submissão exausta para uma frieza estratégica. Já O’Brien brilha ao encarnar o arquétipo do “nepo-baby” com uma mistura irritante de arrogância e covardia. Ele constrói um antagonista detestável o suficiente para que ansiemos por sua queda, mas vulnerável o bastante para manter a tensão palpável. Em certos momentos, a ambiguidade é tamanha que nos questionamos para quem devemos torcer.
A Influência de Triângulo da Tristeza
A sombra de Ruben Östlund (diretor de Triângulo da Tristeza) paira sobre a obra ao utilizar o isolamento como ferramenta de nivelamento social. No entanto, enquanto Triângulo da Tristeza foca no absurdo das elites, Socorro! direciona o olhar para o ressentimento acumulado da classe trabalhadora. A influência é nítida na forma como a sobrevivência vira uma questão de servidão, forçando o público a confrontar o prazer sombrio de ver a inversão de papéis. A ética do trabalho é substituída pela lei da necessidade, tornando a vingança uma subtrama inevitável, ainda que alguns desdobramentos pareçam ecoar excessivamente o filme de 2022.
Conclusão
Socorro! prova que o isolamento é o espelho mais cruel da condição humana. Ao transpor a toxicidade corporativa para um contexto de vida ou morte, Raimi não entrega apenas um thriller de sobrevivência e visualmente impactante, mas uma sátira ácida sobre a fragilidade do poder. O embate entre opressor e oprimido é debatido de forma mordaz, deixando no espectador a incômoda reflexão: em uma situação de limite, qual desses papéis nós assumiríamos?
Socorro! estreia nos cinemas em 29 de janeiro.

