“Aquele Que Viu o Abismo” é um longa-metragem brasileiro de ficção científica distópica e cinema experimental, escrito e dirigido pelo cineasta Gregorio Gananian em parceria com o músico e compositor Negro Leo, que também interpreta o protagonista.
Produzido com uma proposta artística autoral e reconhecido como o Melhor Filme na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o projeto se tornou um dos principais destaques da recente produção independente nacional. A obra é distribuída pela Embaúba Filmes e tem a estreia marcada para 30 de julho nos cinemas.
Sinopse
O filme narra a trajetória de X (Negro Leo), homem que, imerso em uma trama de assassinatos, recorre às suas visões para se esquivar da opressão da Prolirfe Corp., uma multinacional que recruta pessoas em pavilhões e abrigos sob a promessa da imortalidade.
Entre memórias e alucinações, o passado e o presente se sobrepõem no horizonte de um colapso iminente. Guiado pelas lembranças de Ishtar (Ava Rocha), ele vaga pelas ruínas de uma civilização decadente em busca de uma saída para além das ilusões do sistema.
Análise Crítica
Abstração e Distanciamento
A opção pela abstração radical estabelece de imediato um possível distanciamento com o público, sendo uma escolha deliberada de abandonar o compromisso com a clareza narrativa.
Embora a proposta teórica apresente conceitos instigantes sobre um futuro em colapso, a execução na tela se mostra excessivamente complexa, tornando quase impossível acompanhar a trama sem o auxílio prévio de uma sinopse.
Essa ausência de elementos condutores básicos resulta em uma experiência confusa e desarticulada, na qual a recusa em oferecer pontos de apoio ao espectador gera frustração e a sensação de alienação diante da obra.
Ritmo e Sobrecarga Sensorial
A construção do longa-metragem prioriza uma linguagem não linear que impacta diretamente o seu ritmo. A ausência de uma sequência de acontecimentos fluida faz com que sua duração reduzida, de aproximadamente 70 minutos, pareça arrastada e desgastante.
Além disso, a combinação de montagem rápida, sobreposição de imagens e uma trilha sonora densa atua mais como uma barreira de comunicação do que como um recurso integrador, resultando em um acúmulo de elementos visuais e sonoros que sufoca o desenvolvimento do enredo e dificulta o engajamento de quem assiste.
Ambição versus Clareza
Apesar do potencial de seus recursos, existe uma distância considerável entre as ambições da produção e o que é entregue em cena. O uso de locações na China confere um tom condizente com um futuro distópico, enquanto as referências à Epopeia de Gilgamesh sugerem camadas temáticas instigantes sobre a busca pela imortalidade que acabam diluídas pelo excesso de abstração.
Da mesma forma, a decisão de Negro Leo em acumular as funções de coautor, diretor, compositor e protagonista faz com que o projeto pareça voltado apenas para as suas próprias intenções criativas. Como seu personagem permanece em um estado constante de indefinição quanto às próprias motivações, essa concentração de papéis acaba isolando o filme do espectador, reforçando a falta de clareza e a dificuldade de conexão.
Conclusão
Aquele Que Viu o Abismo se apresenta de forma semelhante a um quadro abstrato exibido sem contexto, cuja origem e razão de existir permanecem inacessíveis para quem o observa.
Essa postura fechada em si mesma levanta um debate necessário sobre a produção autoral brasileira, demonstrando que apoiar o cinema nacional também exige a liberdade de criticar obras premiadas que falham em estabelecer uma comunicação mínima com o público.
Como obra cinematográfica narrativa, o projeto não se sustenta, se aproximando mais de uma instalação de arte conceitual do que de um filme tradicional. Trata-se, portanto, de um trabalho recomendado exclusivamente para espectadores já habituados a propostas radicais de abstração no cinema experimental.
Aquele Que Viu o Abismo estreia nos cinemas em 30 de julho.

