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Backrooms: Um Não-Lugar, traz o terror dos espaços vazios

Backrooms: Um Não-Lugar marca a estreia de Kane Parsons na direção de longas-metragens, sob a produção do estúdio A24 em parceria com a Atomic Monster e a Chernin Entertainment. O projeto adapta para o cinema o universo de ficção científica e terror que o realizador desenvolveu originalmente em formato de vídeos no YouTube sob o pseudônimo de Kane Pixels. A fim de estruturar a narrativa fragmentada da internet para o formato cinematográfico, a elaboração do roteiro ficou sob a responsabilidade de Will Soodik, profissional com experiência prévia em produções televisivas como Westworld e Homeland: Segurança Nacional.

Sinopse

Clark (Chiwetel Ejiofor) é o dono de uma ampla loja de móveis que se encontra em decadência. Além disso, ele passa a morar no próprio estabelecimento após o término de seu casamento. Sua vida sofre uma reviravolta quando, de forma acidental, ele acha uma brecha da nossa realidade para um outro ambiente que se assemelha ao nosso, mas que possui a estranheza como sua maior característica. Mary (Renate Reinsve), terapeuta de Clark, também é conduzida a esse mesmo local devido à crescente preocupação com a sanidade de seu paciente. O grande problema é que este lugar desconhecido possui terrores inimagináveis.

A Lenda dos Backrooms

A origem do mito remonta ao ano de 2019, a partir de uma publicação anônima no fórum virtual 4chan que introduziu o conceito de “noclippar”, termo oriundo de falhas de programação de videogames para descrever o ato de atravessar estruturas sólidas e transitar para fora da realidade material. A premissa estabelece que o indivíduo desperta em uma dimensão alternativa deserta e infinita, caracterizada por espaços liminares, que são ambientes de transição, como corredores e salas de espera, que geram estranhamento quando esvaziados de pessoas e de suas funções originais.

Essa ideia inicial se expandiu em uma extensa mitologia construída de forma colaborativa por internautas, que organizaram esse universo em diferentes estágios, a exemplo do Nível 0 com suas salas amareladas, além de incluírem criaturas misteriosas que habitam o local. O interesse da indústria cinematográfica ocorreu após o jovem Kane Parsons reestruturar a narrativa em uma série de vídeos de grande repercussão no YouTube, o que motivou o estúdio A24 a mantê-lo na liderança do projeto, fazendo dele o diretor mais jovem a comandar um longa-metragem na história da produtora.

Narrativa situada nos anos 1990

A escolha de Backrooms por ambientar a narrativa na década de 1990 atua como um elemento fundamental para a construção da atmosfera de desamparo, fundamentada principalmente no isolamento tecnológico da época. Sem o suporte de aparelhos celulares, internet de alta velocidade ou sistemas de localização, a perda de contato com o mundo exterior se torna absoluta, estabelecendo a premissa de que os registros visuais só poderiam ser descobertos anos mais tarde por meio da recuperação física no estilo found footage.

Esse período cronológico justifica também o panorama visual composto por divisórias de compensado, forros modulares e carpetes em tons de bege, características que remetem à expansão dos complexos de escritórios daquele período e harmonizam com a representação da burocracia científica da instituição de pesquisa envolvida. Adicionalmente, a reprodução das imagens geradas por antigas filmadoras portáteis, marcadas por ruídos visuais e cores desbotadas, estimula a percepção do público, que passa a projetar o medo do desconhecido sobre as imprecisões e as áreas sombreadas do que é exibido em tela.

A construção do desconforto

A construção do desconforto psicológico de Backrooms se distancia dos padrões tradicionais do gênero ao abdicar do uso de sombras e da escuridão como fontes primárias de medo, operando quase inteiramente em ambientes amplamente iluminados. A tensão é gerada pela exposição contínua a luzes fluorescentes claras e pelo zumbido constante do sistema de iluminação, criando uma percepção de artificialidade que incomoda o espectador.

Esse efeito é amplificado pelo realismo da produção, que optou pela construção de aproximadamente 2.800 metros quadrados de cenários físicos em vez de recorrer a fundos digitais, transmitindo uma sensação real de isolamento que alterna entre a opressão de tetos baixos e o vazio de espaços desmedidos. Ademais, a configuração visual desses escritórios genéricos e desabitados estabelece uma associação direta com a série Ruptura, que claramente se inspirou nesse mesmo conceito, indicando que ambas compartilham de uma mesma vertente de horror fundamentada na monotonia e na burocracia espacial.

A dualidade da estrutura

A estrutura narrativa apresenta uma divisão marcante, alternando entre uma introdução eficiente e um segmento posterior que reduz a intensidade da obra. A primeira metade se destaca positivamente, tanto nos seus dez minutos iniciais apresentados em formato de found footage, quanto pelo desenvolvimento da jornada de Clark. Essa dinâmica sofre uma desaceleração na segunda metade com a inclusão de uma nova personagem central, no caso Mary, e a consequente alteração no foco de observação, o que compromete o suspense estabelecido. O andamento é prejudicado por algumas explicações a respeito do funcionamento daquele universo, além da introdução de uma criatura física cujo surgimento rompe o clima de mistério psicológico e contraria a proposta de isolamento absoluto que dava força à produção até então.

Conclusão

Backrooms: Um Não-Lugar entrega uma experiência cinematográfica satisfatória, capaz de provocar no espectador um persistente sentimento de estranheza ao término da sessão. A produção evidencia a competência do diretor estreante na condução do projeto, bem como o desempenho seguro dos atores principais no desenvolvimento de seus respectivos papéis. Diante do universo apresentado, é possível notar o potencial dessa mitologia virtual para se desdobrar em uma franquia de proporções ampliadas no cinema, abrindo caminhos para a exploração de narrativas independentes que prescindem de conexões diretas entre si. O resultado final deve causar debates e discussões entre os espectadores.

Backrroms: Um Não-Lugar estreia nos cinemas em 28 de maio.

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