Esta resenha de Cinco da Tarde analisa o mais novo longa-metragem do diretor carioca Eduardo Nunes. O filme encerra uma “trilogia espiritual” iniciada com o premiado Sudoeste (2012) e continuada com Unicórnio (2017).
Reconhecido no circuito internacional de festivais, o cineasta constrói este trabalho a partir de uma narrativa íntima. A produção reafirma o estilo poético que define a trajetória do realizador no cenário do cinema de arte brasileiro.
Sinopse do Filme
Com a morte da avó, Anabel (Bárbara Luz), uma jovem de 17 anos, aproxima-se de Meiko (Sharon Blanche), uma tímida vizinha. Aos poucos, esta aproximação mostra-se reveladora de sentimentos escondidos e semelhanças improváveis.
Ao voltar para o apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença. Esse elemento a faz compreender melhor o momento atual de sua vida. Em um espaço imerso em memórias, as duas jovens passam a confrontar suas próprias solidões.
Análise Crítica do Filme
A Atmosfera Visual e Sonora do Luto
A opção pela fotografia em preto e branco atua como o primeiro elemento de imersão do público. A ausência de cor esvazia o ambiente de distrações para destacar, portanto, o peso real do luto.
Essa escolha visual ganha o reforço de uma estrutura sonora que abdica de trilhas musicais. O diretor prioriza os ruídos cotidianos e os sons internos dos apartamentos.
Dessa forma, os silêncios prolongados ganham relevância e funcionam quase como uma presença física em cena. Essa condução estabelece uma relação direta entre o isolamento dos cenários e as angústias íntimas das personagens.
O Ritmo e a Diluição do Tempo
A abordagem narrativa aposta na diluição do tempo por meio de cenas estendidas. O objetivo principal é criar uma percepção de suspensão da realidade no espectador.
No entanto, essa insistência em planos longos estabelece um ritmo que por vezes compromete o andamento da obra. A reiteração de momentos de aparente imobilidade resulta em um cansaço que enfraquece a experiência.
Por isso, uma montagem um pouco mais concisa faria bem ao projeto. Seria possível preservar o tom reflexivo sem necessariamente esticar a projeção a um ponto de saturação.
A Conexão pelo Amparo Mútuo
O roteiro do longa centraliza sua força na dor e no desejo mútuo de não enfrentar a solidão de maneira isolada. No início, a aproximação imediata entre as duas garotas pode gerar uma estranheza quanto à sua verossimilhança. Apesar disso, a convivência subsequente se desenvolve com um conforto natural.
Esse vínculo ganha sustentação no paralelo entre seus históricos familiares de perda:
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Anabel: lida com a morte recente da avó, interpretada por Analu Prestes.
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Meiko: carrega a ausência anterior da mãe, papel de Miwa Yanagizawa.
Essa dinâmica cria um espelhamento dramático que justifica o amparo encontrado nessa reunião.
Elementos de Bastidores e Narrativas
O Significado Lúdico do Título
O título do longa traz um significado poético diretamente ligado às memórias da protagonista. A escolha do horário remete ao desejo constante da avó de Anabel. Ela queria que os sinos da igreja tocassem exatamente às 17h, por considerar este o período mais agradável do dia.
A neta argumentava que o sino tocava tradicionalmente mais tarde para anunciar o início da missa. Diante disso, a idosa sugeria que a própria celebração religiosa deveria ser antecipada. Essa divergência sutil funciona como uma representação afetuosa da preservação das lembranças de quem partiu.
Produção, Elenco e Identidade Geográfica
Nos bastidores, o projeto se destaca por dois fatores principais que enriquecem a experiência do espectador:
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O reencontro com Bárbara Luz: O diretor retoma a parceria com a atriz, que protagonizou Unicórnio na infância. A câmera registra o amadurecimento real da jovem, que hoje tem projeção internacional por Ainda Estou Aqui (2024).
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O DNA de Niterói: Embora seja uma coprodução internacional com Portugal, o filme foi inteiramente rodado em Niterói. A cidade é a terra natal do cineasta e berço de sua formação na Universidade Federal Fluminense (UFF), trazendo um tom de intimidade geográfica para a tela.
Conclusão: Vale a Pena Assistir?
Em resumo, Cinco da Tarde é uma obra excessivamente contemplativa. Apesar de ter um ritmo que poderia ser mais conciso para evitar o cansaço, o longa demonstra eficiência na transmissão de sua mensagem sobre o luto.
Por causa de suas escolhas narrativas tão específicas, trata-se de um exemplar clássico do cinema de arte nacional. Seu circuito natural de exibição deve se concentrar em salas alternativas e festivais, ficando distante do circuito comercial de grande porte.
Cinco da Tarde estreia nos cinemas em 18 de junho.


