Guia Mundo Moderno

Crítica: O “Mandaloriano e Grogu”: entre a fofura e o dinheiro

O Mandaloriano e Grogu faz parte do Mandoverso, um universo compartilhado composto pelas três temporadas da série de mesmo nome e outras duas séries, todas do serviço de streaming da Disney, comandado pelo showrunner Jon Favreau, diretor e roteirista do filme, e o roteirista e produtor Dave Filoni. A história se passa cronologicamente após os acontecimentos de O Retorno de Jedi (1983) que encerra a trilogia clássica de George Lucas, e antes de O Despertar da Força (2015), primeiro da trilogia mais recente. No entanto, não há necessidade de ter visto qualquer filme ou série para entender o que se passa nesse universo tão rico e se divertir com o bondoso e habilidoso caçador de recompensas Din Djarin (Pedro Pascal), o mandaloriano do título, e com o fofo e cativante Grogu, bebê da mesma espécie do Yoda, mestre icônico da franquia, de onde surgiu o apelido Baby Yoda.

Sinopse

Star Wars: O Mandaloriano e Grogu continua a história da série O Mandaloriano, do Disney+, parte integrante do universo de Star Wars. O mandaloriano caçador de recompensas Din Djarin e seu fiel companheiro Grogu embarcam em missões pela galáxia a mando da Nova República, que tenta acabar de uma vez por todas com as forças remanescentes do Império.

 

Pôster – Fonte: Divulgação Disney

Star Wars, uma franquia que perpassa gerações

Os universos cinematográficos se popularizaram nas últimas duas décadas com a Marvel, e na sequência, Star Wars tentou seguir a mesma lógica: histórias interligadas em um mesmo fio narrativo principal com desdobramentos em filmes e séries derivados. No caso de Guerra nas Estrelas, o universo sempre foi vasto, passando por filmes, séries, animações, jogos, histórias em quadrinhos e livros. Nunca foi fácil acompanhar tudo, mas também nunca foi necessário. A marca é forte há décadas, sustentando convenções de fãs e licenciamentos milionários. Não é fácil achar quem não conheça, ao menos vagamente, Darth Vader, Luke Skywalker, Yoda e tantos outros personagens. O universo criado por George Lucas já faz parte do imaginário coletivo, mas isso por si só não garante sucesso de bilheteria ou qualidade. A trilogia clássica é ainda hoje lembrada como um marco na história do cinema, servindo como base para o surgimento dos blockbusters, os arrasa-quarteirão. Porém, esse modelo de negócio parece atingir certo esgotamento.

Depois da aquisição da franquia pela Disney em 2012, novos filmes foram lançados, agora sem seu criador, tendo uma recepção mista pelo público e pela crítica. O fracasso do filme derivado focado em Han Solo e as séries do Disney+ com baixa audiência demonstram o cansaço, não apenas com Star Wars, mas com grandes franquias em geral. A grande questão de O Mandaloriano e Grogu é se ele funciona enquanto narrativa isolada e se isso será o suficiente para atrair espectadores ou se ele permanecerá restrito a uma bolha nerd já convertida.

Um filme para e sobre família

O Mandaloriano, interpretado por Pedro Pascal, é um caçador de recompensas, isto é, um mercenário. Seu trabalho, portanto, se baseia, a princípio, no pragmatismo de quem paga mais. Ele, no entanto, não parece agir conforme os preceitos da sua área de atuação. Ao longo do filme, fica claro – mesmo para quem não viu a série – como suas ações são mais norteadas por preceitos morais e pessoais do que recompensas monetárias imediatas. Mais de uma vez tentam comprá-lo e ele não se dobra. Sua lealdade está com a Nova República, demonstrando seu alinhamento político nada neutro, mas sobretudo, com seu companheiro, quase afilhado, Grogu, que poderia facilmente ser usado como mero recurso para atrair um público mais infantil. Realmente, ele funciona para as crianças, o filme tendo potencial para agradar toda a família, porém, é nítido o esforço em torná-lo o que de fato é, um personagem, com questões, mesmo simples, e arco narrativo bem estabelecido. Sem entrar muito no contexto da fala, para não dar spoiler, em certo momento, Din Djarin elucida o óbvio: os mais velhos cuidam dos mais novos, e os mais novos cuidam dos mais velhos. Essa é a base da relação dos dois, reciprocidade afetuosa. Eles são uma família.

A política dos afetos

De certa forma, a Nova República seria uma grande família extendida, com laços políticos amalgamados pelos laços fraternos. Grogu é a miniaturização desse argumento, da política enquanto relação humana. Já muito explorado em outros filmes da franquia, o contraste dessa visão de mundo com a dos vilões – aqui resquícios de um governo totalitário em ruínas, mas não totalmente derrotado – é também evidenciado logo na primeira cena, quando um general de guerra Imperial fala com seus protegidos, que menos parecem aliados e mais parecem reféns, bem na lógica de milicianos “protegendo” comerciantes locais, que não podem recusar os “serviços” prestados. O Mandaloriano surge para destruir essa lógica, através da força bruta, mas sempre norteado pela proteção dos que precisam ser protegidos. Ele é um herói clássico com roupagem de anti-herói. Sua criação, seu código mandaloriano, o recobre, envolve fisicamente seu corpo e rosto, mas também moralmente suas ações. Entretanto, isso é desconstruído por meio de reiteradas atitudes do personagem, sempre mais bondoso e prestativo do que ganancioso. É preciso fazer um adendo: o código de conduta mandaloriano é complexo e em uma rápida pesquisa percebi como envolve também valores como não trair, respeitar seus inimigos, proteger família, crianças, enfim, um conjunto de regras que vai além da lógica padrão de trabalhar matando em troca de dinheiro. Ainda assim, esse contexto histórico não fica claro no filme. A única base de análise do personagem por quem não viu a série ou pesquisou a respeito é o imaginário coletivo construído há décadas de que mercenários agem por dinheiro e nada mais. No filme aparece, inclusive, outro mercenário que encarna perfeitamente esse clichê. Din Djarin o enfrenta em uma luta corpo a corpo, o que funciona como uma representação simbólica do contraste das duas formas de ser um mercenário. Entre dinheiro e família, em sentido amplo, ele sempre escolhe família.

 

Cena do filme – Fonte: Divulgação Disney

 

Um filme partido em dois

Estruturalmente, o filme parece um especial de dois episódios de uma série de tv. No meio do filme, um arco narrativo é resolvido e um outro se inicia. Eles são diretamente ligados, um implica no outro, mas claramente daria para dividir em dois episódios. Por um lado, essa decisão pode funcionar muito bem para os fãs da série, por outro, pode soar estranho para o espectador casual. O filme parece que termina e logo em seguida recomeça. Como a segunda parte é tão bem feita como a primeira, não é tão problemático, mas é arriscado perder parte do público que pode ver nisso uma sensação de alongamento desnecessário e ficar cansado. Com o uso excessivo de telas, redes sociais e plataformas de vídeos curtos, as pessoas estão cada vez mais impacientes e distraídas. Um filme que parece ser a junção de dois pode causar um desconforto em alguns espectadores em relação ao ritmo da trama. Inclusive, em certo momento, há uma desaceleração brusca no ritmo, tendo uma mudança de foco para desenvolver Grogu. Saímos da ação frenética para a cadência de um bebê fazendo coisas fofas, mas preocupado com seu amigo. Vemos nesse momento como O Mandaloriano e Grogu genuinamente precisa desse título. Os dois são protagonistas, não existe um sem o outro. Grogu não é mero mascote, ele é um ser pensante, com sentimentos e evolução pessoal. Talvez a decisão de estruturar a história assim seja reflexo dessa necessidade, de dar espaço para o bebê, para ele ter tempo de tela adequado ao status de coprotagonista.

Conclusão

Mesmo com problemas de ritmo, a direção de Jon Favreau é certeira. As cenas de ação empolgam e o humor não soa forçado. A fotografia por vezes é padrão, mas tem momentos lindíssimos. A trilha sonora é impecável, com um uso surpreendente de sintetizadores. A atmosfera do filme muda consideravelmente a partir do planeta onde a cena se passa e as diferenças estéticas entre eles não aparentam desconjuntadas. A direção de arte confere uma unidade, uma coerência, fundamental para criar um universo coeso. O CGI somado ao uso de fantoches é um deleite aos olhos. É difícil apontar defeitos. Talvez o maior seja como a narrativa não inventa nada novo. Ainda assim, o clássico aqui é muito bem aplicado. O Mandaloriano e Grogu é diversão garantida. O único empecilho é o desgaste da franquia junto ao público. Difícil dizer se será um sucesso, mas esse deveria ser o futuro de Star Wars, filmes com histórias fechadas que funcionam com independência, agradando aos fãs e ao público casual.

O Mandaloriano e Grogu estreia dia 21 de maio nos cinemas.

 

 

 

Posts Relacionados

Carregando...

Ao usar este site, você concorda com a nossa Politica de Privacidade. OK Saber mais