Com uma estética refinada e o selo de prestígio da A24, Manual Prático da Vingança Lucrativa chega aos cinemas brasileiros como uma das apostas mais ácidas da temporada. Sob a direção de John Patton Ford (Emily, A Criminosa), o longa marca o aguardado resgate de um roteiro que figurou na prestigiada Black List (a lista dos melhores roteiros não filmados de Hollywood) por mais de uma década antes de ganhar vida. Estrelando um elenco de peso liderado por Glen Powell e Margaret Qualley, a produção se destaca por revitalizar o clássico do cinema britânico de 1949, As Oito Vítimas (Kind Hearts and Coronets). Unindo o humor negro britânico a uma roupagem moderna e cínica, a obra promete uma experiência cinematográfica que equilibra luxo, sátira social e um ritmo envolvente.
Sinopse
Rejeitado ao nascer por sua família obscenamente rica, o jovem de classe operária Becket Redfellow (Glen Powell) decide que não vai mais aceitar as migalhas do destino. Convencido de que é o herdeiro legítimo de uma fortuna de 28 bilhões de dólares, ele arquiteta um plano meticuloso e sanguinário para recuperar o que acredita ser seu por direito. Para isso, Becket terá que “podar” cada um dos sete parentes excêntricos que estão à sua frente na linha de sucessão, em uma jornada que mistura manipulação, crítica social e uma boa dose de violência calculada.
O protagonista e o dilema moral
Glen Powell (Top Gun: Maverick) está em alta em Hollywood e é fácil entender o motivo: o ator consegue transmitir imensa simpatia, consolidando-se como um dos grandes galãs do cinema atual. Seu personagem oscila entre um herdeiro injustiçado e um sociopata calculista. O espectador se vê torcendo por ele em muitos momentos, ainda que certas ações pareçam excessivas, chegando a um ponto em que o assassinato não seria mais necessário para atingir o sucesso. Embora suas atitudes sejam altamente questionáveis, somos levados a apoiá-lo nessa cruzada. É através de seu olhar que o público se torna cúmplice de cada crime, transformando a sessão em um exercício constante de conflito moral.
Motivações e sátira social
Sabemos que a conduta do nosso “herói” é reprovável, mas, ao conhecermos os membros da família, acabamos comprando a briga. A maioria dos parentes não é composta por vítimas inocentes, são retratados como figuras tão detestáveis que suas mortes parecem justificáveis dentro daquele universo. Vale lembrar que se trata de uma sátira, e não de um drama absolutamente sóbrio. Além disso, o longa sugere que, em um sistema onde o sobrenome dita o destino, a vingança de Becket não nasce apenas da ganância, mas de um desejo desesperado por reconhecimento em um mundo que o rotulou como invisível. Ele poderia ter parado quando já estava financeiramente estável, mas carecia dessa legitimação.
Tom e execução técnica
A obra consegue equilibrar com precisão o humor e o suspense. Risadas desconfortáveis surgem quando menos se espera, e as mortes, por mais que algumas sejam gráficas, possuem um toque de comédia que suaviza o impacto. Os óbitos são tratados de forma irônica, sombria e quase burocrática, como se o protagonista estivesse apenas riscando itens de uma lista de tarefas cotidianas. Essa mistura de sarcasmo com o suspense de “gato e rato” cria uma atmosfera única, onde o espectador hesita entre rir da audácia de Becket ou temer pela integridade moral do protagonista.
Conclusão
Manual Prático da Vingança Lucrativa é um excelente entretenimento para o fim de semana, entregando exatamente o que promete: uma jornada ácida e imensamente satisfatória. É um filme genuinamente prazeroso, que extrai humor de sua própria amoralidade e do timing cômico impecável de seu elenco. No entanto, falta-lhe aquela densidade temática ou originalidade narrativa que o elevaria ao patamar de um clássico instantâneo. A trama opera dentro de fórmulas conhecidas, ainda que as execute bem. Trata-se de uma experiência cinematográfica divertida e passageira, ideal para quem busca uma crítica afiada, mas que não chega a ser uma obra transformadora para o gênero.
Manual Prático da Vingança Lucrativa estreia nos cinemas em 26 de fevereiro.

