Overman: O Filme é uma comédia em live-action adaptada das tirinhas criadas pela cartunista Laerte Coutinho. Com direção de Tomás Portella (Aumenta que é Rock’n’Roll), que também assina o roteiro ao lado de Arnaldo Branco (Porta dos Fundos) e Leandro Soares (Vai que Cola), o longa-metragem foi exibido na mostra Première Brasil do Festival do Rio. Produzida pela Migdal Filmes em coprodução com a Star Original Productions, a obra traz Caco Ciocler no papel do protagonista e conta também com um grande elenco.
Sinopse de Overman
Overman (Caco Ciocler), um super-herói em decadência, aceita um emprego na Secretaria de Segurança Pública do governo para tentar se reerguer. Ao trabalhar ao lado de Pâmela (Karina Ramil), sua fiel parceira que começa a ganhar reconhecimento igual ao dele, Overman confronta sua masculinidade tóxica e descobre segredos obscuros envolvendo o Governador (Otávio Muller). Agora, ele precisa confrontar seus demônios internos e um inimigo antigo para evitar que a cidade caia no caos irreversível, enquanto tenta garantir sua tranquilidade para farrear nas noites de sexta-feira.
Análise Crítica do Filme
Ritmo Cômico
Como principal pilar da narrativa, a comédia deixa a desejar por não conseguir engatar o ritmo humorístico pretendido. As piadas oscilam com frequência e o tempo cômico das cenas soa arrastado, fazendo com que a obra pareça uma sequência de esquetes isoladas que não se sustentam no formato de longa-metragem. Essa execução simplista resulta em um tom superficial e ingênuo, distanciando o filme do impacto e do frescor necessários para prender a atenção do espectador.
Sátira ao Gênero de Super-Heróis
A proposta de parodiar o universo dos super-heróis e ironizar algumas fórmulas do cinema de Hollywood perde grande parte de sua força por chegar em um momento em que o gênero já se encontra bastante saturado. A desconstrução desses estereótipos para a criação de uma figura tipicamente brasileira parece inovadora, mas acaba soando comum, uma vez que esse tipo de sátira já foi amplamente explorado pela cultura pop nos últimos anos. Caso a adaptação tivesse sido lançada anos atrás, o impacto e o apelo de novidade junto ao público certamente poderiam ter sido maiores.
Escolha Narrativa
A decisão de apresentar o herói já inserido na rotina diária, sem dedicar tempo ao tradicional trauma de origem ou à explicação sobre como surgiram seus poderes, é uma escolha bem-vinda e acertada. No entanto, o roteiro não consegue aproveitar essa boa premissa para construir situações realmente marcantes ou de grande apelo. Com isso, esse diferencial positivo perde espaço no conjunto da obra e acaba passando de forma discreta, sem provocar um impacto significativo no desenvolvimento da história, não que seja algo extraordinário, mas poderia enriquecer a narrativa e trazer mais humor ao filme.
Fidelidade à Obra de Laerte Coutinho
Embora não seja necessário ser um leitor assíduo dos quadrinhos originais para acompanhar a história, a sensação transmitida é a de que a adaptação não faz jus ao material de origem. As tirinhas criadas por Laerte Coutinho possuem uma reputação de acidez e inteligência crítica que se perde na transição para o cinema, resultando em uma versão simplificada na tela. O valor do texto impresso acaba apagado por uma condução superficial, que entrega um resultado bem menos expressivo do que a obra na qual se baseia.
Temas Sociais e Crítica Comportamental
O roteiro apresenta reflexões interessantes sobre temas de relevância social e psicológica. Questões como a masculinidade frágil, expressa no incômodo do protagonista diante do sucesso de sua parceira e em suas sessões de terapia, oferecem uma boa crítica comportamental. A história também aborda a precariedade do trabalho na vida adulta no Brasil e o dilema de carregar responsabilidades sem um propósito claro. Contudo, esses conteúdos mais maduros perdem força diante do tom infantilizado da narrativa, fazendo com que discussões pertinentes acabem sufocadas pela fragilidade do humor.
Aspectos Técnicos e Atuações
No aspecto técnico e nas interpretações, percebe-se um esforço louvável por parte da equipe e do elenco. Destaca-se o trabalho de Caco Ciocler (Vale Tudo), que sustenta o papel do protagonista recorrendo exclusivamente à imposição vocal e ao trabalho corporal, sem em nenhum momento remover a máscara. A iniciativa de valorizar a brasilidade e utilizar efeitos práticos simples demonstra coragem na proposta. No entanto, esses acertos pontuais não conseguem se sobrepor às falhas do roteiro e do ritmo, sendo insuficientes para elevar a qualidade geral do resultado final.
Conclusão
Overman: O Filme é uma produção com boas intenções e temas de inegável valor social, mas que falha em sua entrega principal. A tentativa de criar uma sátira ao universo dos super-heróis em contexto brasileiro esbarra em piadas sem o tempo cômico adequado e em um tom narrativo superficial. Embora haja méritos no trabalho de atuação e na decisão de abordar assuntos relevantes da rotina adulta, o resultado fica aquém do potencial de sua fonte original, entregando um entretenimento frágil que dificilmente se destaca perante o público.
Lançamento nos Cinemas
Overman: O Filme esteve presente no Festival do Rio e estreia comercialmente nos cinemas em 22 de outubro.

