Ao Sabor das Cinzas é um longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta pernambucano Taciano Valério, produzido pela Autorias Filmes em coprodução com a Casa de Cinema e distribuído pela Embaúba Filmes. Estruturada como um drama familiar com traços de road movie e realismo fantástico, a obra acompanha o reencontro de duas irmãs no interior de Pernambuco após o desaparecimento do corpo do pai. Ao conduzir as personagens pelas paisagens do Nordeste, o trabalho recorre ao silêncio e à ambientação local para explorar o luto, as falhas de comunicação e as memórias da família.
Sinopse
O conflito de duas irmãs que se reencontram diante da morte do pai e buscam acertar os trâmites do sepultamento ganha novos rumos no intervalo em que descobrem que o corpo do falecido desapareceu do necrotério de um hospital. A partir dessa ausência perturbadora, surgem revelações do passado e elas são forçadas a embarcar em uma jornada pelas estradas do agreste em busca de respostas. Durante o percurso, os velhos ressentimentos guardados e os silêncios acumulados vêm à tona, transformando a trajetória física em um doloroso acerto de contas com a própria história.
Ritmo e Estrutura
A obra exige certa paciência do espectador em seu primeiro ato, uma vez que o ritmo inicial é cadenciado e a narrativa demora a engrenar e a esclarecer a situação apresentada. Embora a premissa sugira uma história dinâmica focada em um clássico road movie, o deslocamento em si demora a ter início e não atua como o condutor da agilidade da trama. No entanto, essa lentidão cumpre uma função importante ao longo do percurso: a viagem pelas estradas oferece o tempo necessário para o desenvolvimento das conversas, ajudando a revelar a personalidade das irmãs e de outros personagens, além de expor os conflitos internos que sustentam as relações em cena.
Relações Familiares
No plano relacional, a jornada evidencia um profundo abismo de comunicação entre as protagonistas. A dificuldade de diálogo sincero entre as irmãs é reflexo de preconceitos, ressentimentos antigos e escolhas de vida opostas que as afastaram ao longo dos anos. À medida que tentam resolver os procedimentos do funeral, a convivência forçada traz à tona as tensões acumuladas. Esse desgaste não decorre apenas da dor da perda, mas da existência de um antigo segredo guardado pelo patriarca, uma revelação desconhecida pelas irmãs durante a procura, mas de conhecimento de Isadora (Isadora Gibson), filha de Bethânia (Verônica Cavalcanti), uma das irmãs, que, ao editar o vídeo em casa, planeja expor publicamente essa verdade capaz de desestruturar a família.
Realismo Fantástico
A narrativa se distingue ao se afastar do drama tradicional do luto, substituindo as manifestações habituais de choro e velório por uma procura incomum e repleta de eventos fora do convencional. Essa abordagem ganha contornos de realismo fantástico à medida que o próprio falecido, Seu Lauro (Everaldo Pontes), se manifesta como se estivesse vivo durante o transporte de seu corpo, eliminando a fronteira entre o plano material e o imaterial. Essa dinâmica propõe uma reflexão sobre a própria natureza da memória familiar: enquanto algumas lembranças permanecem evidentes, são os fatos mantidos em segredo, aqueles ocorridos distante do olhar público, que exercem o impacto mais profundo e definitivo.
Linguagem Autoral
Por se caracterizar como uma produção fortemente autoral voltada ao circuito de arte, a obra adota uma abordagem experimental e pouco alinhada às fórmulas comerciais. O enredo não tem a preocupação de fornecer explicações lógicas ou didáticas para os episódios fantásticos que apresenta, exigindo do espectador uma postura mais contemplativa diante das situações mostradas. Por não se enquadrar no meu estilo de cinema preferido, a estrutura não convencional e o ritmo reflexivo tornam a experiência por vezes distante e desafiadora. Contudo, trata-se de um formato que encontra seu valor e seu público-alvo entre os apreciadores de narrativas menos lineares e mais abertas a interpretações.
Conclusão
Ao Sabor das Cinzas se apresenta como um trabalho singular dentro do cinema autoral brasileiro ao utilizar uma jornada incomum para examinar as fragilidades e as dores reprimidas de uma estrutura familiar. Embora seu ritmo pausado e sua linguagem abstrata possam afastar quem busca um entretenimento mais dinâmico ou convencional, o filme cumpre a proposta de provocar reflexões sobre a perda, o silêncio e as memórias que insistem em permanecer. Trata-se, em suma, de uma obra que aposta no poder da atmosfera e no peso do inacabado, oferecendo uma experiência marcante para espectadores interessados em propostas narrativas menos tradicionais.
Estreia
Ao Sabor das Cinzas estreia nos cinemas em 22 de outubro.

