ROSEBUSH PRUNING
Rosebush Pruning é uma comédia dramática satírica e thriller em língua inglesa dirigida pelo renomado cineasta brasileiro Karim Aïnouz (A Vida Invisível). Livremente adaptada do clássico italiano De Punhos Cerrados (1965), de Marco Bellocchio, a obra reúne um elenco de destaque internacional e figurou na competição principal pelo Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, integrando também a programação do Festival do Rio deste ano.
Sinopse
Quando Jack (Jamie Bell), o irmão mais velho, apresenta sua noiva Martha (Elle Fanning) para a família, tensões há muito tempo reprimidas vêm à tona e os laços de sangue da matilha começam a se romper. Isolados em seu refúgio de luxo, os membros desse clã excêntrico são confrontados pela presença de uma forasteira que ameaça expor seus segredos mais perturbadores. À medida que o frágil equilíbrio doméstico desmorona, desejos ocultos e conflitos morais conduzem todos a uma espiral incontrolável de caos. O que parecia uma simples visita se transforma em um jogo perigoso de poder, onde a sobrevivência da própria família está em jogo.
Impressões e Recepção
A experiência de acompanhar a obra é marcada por uma constante estranheza, construindo uma atmosfera incômoda do início ao fim. Embora seja divulgado como uma comédia ácida, o tom se afasta do humor tradicional. A excentricidade dos personagens e as situações retratadas ultrapassam os limites do cômico, aproximando a narrativa do bizarro. Diante dessa construção, a recepção do longa pode se tornar ambígua, deixando o espectador incerto quanto à aprovação ou rejeição da história. Ainda que o saldo final incline para um resultado insatisfatório devido ao comportamento desse clã e às situações em que se colocam, é possível extrair aspectos interessantes do projeto.
Decadência e Conflito Familiar
O convívio do grupo revela um ambiente marcado pela futilidade e pela degradação moral. A relação incestuosa entre os integrantes não é apenas sugerida, mas exposta de maneira direta à medida que o enredo avança. Os membros da casa são retratados como figuras egoístas, preguiçosas e medíocres, cuja rotina se resume ao isolamento e à busca por fofocas e prazeres sem propósito. A chegada de Martha (Elle Fanning), elemento externo a esse ciclo, escancara a hostilidade do ambiente, resumindo a experiência da visitante à desconfortável sensação de “bem-vindo à família, você vai desejar não ter vindo”.
Retrato dos Irmãos
O arranjo familiar é singular e todos os seus integrantes possuem nuances próprias, mas vale destacar dois nomes nesse núcleo.
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Ed, interpretado por Callum Turner (Eternidade), atua como o narrador da história e representa a futilidade em seu nível máximo: um jovem vaidoso e narcisista que se orgulha de não ler nem escrever, mantendo seu interesse restrito à moda e à imitação de vozes alheias. É curioso conduzir o público por meio de um personagem que não ocupa o papel de verdadeiro protagonista.
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Em contrapartida, Jack (Jamie Bell), surge inicialmente como a figura mais sensata e funcional do grupo, criando uma falsa impressão de normalidade. Contudo, essa postura logo se desfaz ao revelar suas próprias excentricidades, entre as quais se destaca um grande fetiche por sangue.
Simbologia do Título
O título traduzido, Poda de Roseira, carrega um duplo sentido que sintetiza os temas centrais do enredo. Por um lado, funciona como uma metáfora para a necessidade de eliminar ou “podar” os membros disfuncionais da casa a fim de preservar a estrutura coletiva. Sob a perspectiva de Ed, ele próprio seria uma figura lúcida, enxergando os demais como o verdadeiro problema e reservando afeto genuíno apenas para o irmão Jack (Jamie Bell). Por outro lado, o nome do longa se refere diretamente a uma excentricidade do personagem: o ato literal de cortar os ramos da roseira é o que lhe desperta excitação sexual. Dessa forma, a escolha do título alinha o conceito da trama às obsessões e perturbações que regem o comportamento dos envolvidos.
Conclusão
Rosebush Pruning reafirma a relevância de ver o cineasta brasileiro Karim Aïnouz no comando de produções internacionais de grande porte, liderando um elenco de prestígio global. Embora a obra esteja distante de ser excelente devido ao tom incômodo e à narrativa peculiar, a condução do diretor é firme e demonstra sua habilidade em assumir riscos artísticos. No balanço final, mesmo que a audácia de navegar por caminhos tão atípicos resulte em um filme desconfortável e divisivo para o público, o empenho e o talento de Aïnouz no projeto permanecem notáveis.

